No artigo sobre stablecoins em reais no Brasil, exploramos o BRZ, o BRLA e outras stablecoins emitidas por empresas — nas quais uma companhia específica mantém as reservas, decide as regras e, tecnicamente, tem o poder de congelar saldos de usuários específicos se for legalmente obrigada a isso. Existe, porém, uma categoria de stablecoin construída sobre uma premissa radicalmente diferente: nenhuma empresa detém as rédeas. A DAI é o exemplo mais estabelecido e testado dessa categoria — um dólar digital emitido não por uma empresa, mas por um protocolo aberto, com colateral trancado em contratos inteligentes públicos e auditáveis por qualquer pessoa.
Neste artigo, você vai entender como a DAI funciona na prática, por que ela é estruturalmente diferente das stablecoins que já exploramos no blog, o que mudou com o rebranding do MakerDAO para “Sky Protocol”, e uma tensão que já não é mais teórica: o próprio ecossistema está debatendo se deve se tornar mais institucional (e um pouco menos descentralizado) para competir de igual para igual com o mercado tradicional.
Índice:
- O que torna a DAI diferente de USDT, USDC e BRZ
- Como a DAI mantém o valor sem reservas em banco
- O rebranding para Sky: DAI não morreu, ganhou uma irmã
- O dilema de 2026: descentralização pura ou adoção institucional?
- Onde a DAI é usada na prática
- Os riscos específicos da DAI
- Perguntas frequentes
O que torna a DAI diferente de USDT, USDC e BRZ
Em um setor dominado por stablecoins lastreadas em reservas bancárias centralizadas, a DAI historicamente representou o caminho alternativo: um dólar digital emitido por um protocolo aberto, garantido por colateral em criptoativos trancado on-chain, sem um emissor único com poder de congelar contas.
Essa distinção não é apenas filosófica — tem consequências práticas concretas. Quando você possui USDT ou USDC, existe uma empresa (Tether ou Circle, respectivamente) que, tecnicamente e legalmente, pode bloquear endereços específicos em caso de determinação judicial ou suspeita de atividade ilícita. Isso já aconteceu diversas vezes no histórico dessas stablecoins. Já a DAI, por ser emitida por um protocolo descentralizado governado por detentores de um token de governança, não tem esse mesmo ponto único de controle — não existe um “botão de congelar” que uma única entidade possa apertar.
Vale notar que essa distinção, como veremos mais adiante, ficou mais nuançada nos últimos anos — mas o princípio fundacional continua sendo o que diferencia a DAI de qualquer stablecoin emitida por empresa, incluindo as brasileiras que já exploramos no blog.
Como a DAI mantém o valor sem reservas em banco
O mecanismo por trás da DAI é o de colateralização excessiva através de posições chamadas de Vaults (antigamente chamadas de CDPs — Collateralized Debt Positions). Funciona assim:
1. Um usuário deposita criptoativos aprovados — Ethereum, wstETH (Ethereum em staking líquido), USDC ou ativos do mundo real (RWA) — em um Vault, um cofre inteligente controlado por contrato.
2. Com esse colateral trancado, o protocolo permite que o usuário gere (mint) DAI contra uma fração do valor depositado — sempre abaixo de 100%, o que caracteriza a “colateralização excessiva”. Se você deposita US$ 150 em ETH, por exemplo, pode gerar até um determinado limite de DAI, sempre inferior a esse valor total.
3. Um mecanismo de governança, através de um contrato chamado DSR (Dai Savings Rate), paga juros a quem mantém DAI trancada, ajustando a taxa conforme necessário para influenciar a oferta e a demanda do token e manter a paridade com o dólar.
4. Um segundo mecanismo, o PSM (Peg Stability Module), permite trocar DAI por outras stablecoins como USDC numa proporção fixa de 1 para 1, funcionando como uma válvula de arbitragem que ajuda a manter o preço da DAI colado ao dólar.
5. Se o valor do colateral cair abaixo de um limite de segurança, o Vault é liquidado automaticamente pelo protocolo, protegendo a solvência geral do sistema — mecanismo que já foi testado sob estresse real, como veremos na seção de riscos.
O rebranding para Sky: DAI não morreu, ganhou uma irmã
Em agosto de 2024, o MakerDAO passou por um rebranding significativo, se tornando Sky Protocol, como parte de um plano de longo prazo chamado “Endgame”. Essa mudança introduziu um novo token, o USDS, projetado como evolução da DAI — conversível numa proporção fixa de 1 para 1, com integração nativa a um mecanismo de rendimento chamado Sky Savings Rate (sUSDS) e a um novo token de governança, o SKY, que substitui o antigo MKR numa proporção de 1 para 24.000.
O ponto importante para quem já usa ou considera usar DAI: ela não foi descontinuada. Em 2026, DAI e USDS circulam lado a lado, com um contrato conversor permitindo transformar um no outro a qualquer momento, na proporção fixa. Segundo dados da DeFiLlama, DAI e USDS somam juntos aproximadamente US$ 12 bilhões em circulação — posicionando o ecossistema Sky entre os cinco maiores protocolos DeFi por valor total travado (TVL), conceito que já exploramos no artigo sobre DeFi no Brasil.
Vale destacar que DAI é o token histórico, mantido para usuários e integrações que preferem a marca original — e ainda é a opção padrão em diversos aplicativos e redes, mesmo com a existência do USDS mais recente. A DAI continua diretamente integrada a protocolos centrais do ecossistema DeFi, como Aave V3, Uniswap V4 e Curve — os três maiores protocolos de liquidez do setor em 2026.
O dilema de 2026: descentralização pura ou adoção institucional?

Esta é a tensão mais interessante — e mais reveladora — do momento atual do protocolo. Na prática, a fronteira entre “descentralizado” e “centralizado” já ficou parcialmente turva. A integração massiva de RWA (ativos do mundo real, como títulos tokenizados) na composição do colateral, somada ao uso de USDC como colateral secundário através do PSM, expõe parcialmente o protocolo aos mesmos riscos de censura dos ativos centralizados que ele originalmente buscava evitar.
Essa tensão reflete algo mais amplo, que já discutimos no artigo sobre RWA no Brasil e no artigo sobre a entrada da DTCC na tokenização institucional: para competir com o rendimento de títulos tradicionais e atrair capital institucional, os protocolos descentralizados vêm se apoiando, em parte, no próprio sistema financeiro que originalmente prometiam substituir.
Diante desse dilema, o ecossistema Sky já sinaliza um caminho de bifurcação: enquanto USDS se posiciona como a versão “mainstream”, mais integrada a mecanismos de rendimento e colateral institucional, existe debate na comunidade sobre iniciativas paralelas — como um projeto informalmente chamado de “PureDai” — voltadas a manter uma versão sem exposição a colateral centralizado, priorizando resistência à censura acima de tudo, mesmo que isso signifique menos liquidez e crescimento mais lento.
Para quem valoriza especificamente a característica de resistência à censura, essa distinção interna do ecossistema é importante: nem toda DAI em circulação hoje tem exatamente o mesmo perfil de risco de descentralização, dependendo da composição do colateral que sustenta aquele fornecimento específico.
Onde a DAI é usada na prática
Para investidores e usuários que já exploram o ecossistema DeFi — como discutimos em detalhe no artigo correspondente do blog — a DAI segue sendo relevante em cenários específicos:
Empréstimos sem intermediário identificado. O protocolo continua sendo referência para quem busca operações de crédito descentralizado sem depender de uma instituição financeira tradicional agindo como intermediária.
Integração profunda com os principais protocolos DeFi. Por estar nativamente integrada a Aave, Uniswap e Curve, a DAI funciona como uma peça de infraestrutura dentro de operações mais complexas de yield farming e provisão de liquidez, conceitos que já detalhamos no artigo sobre DeFi.
Uso por aplicações e redes que ainda priorizam DAI sobre USDS. Mesmo com o lançamento do USDS, uma parte relevante do ecossistema técnico continua com DAI como padrão — por familiaridade, integração legada ou preferência filosófica pela marca original.
Os riscos específicos da DAI
Como em qualquer ativo do universo cripto, a resiliência histórica não elimina riscos reais — e a DAI já passou por, pelo menos, um teste de estresse extremo que vale conhecer.
O “Black Thursday” de 2020. Em março de 2020, durante a volatilidade extrema do início da pandemia, o Ethereum caiu mais de 40% em poucas horas. A rede ficou congestionada, e liquidações de Vaults aconteceram a preços artificialmente baixos — em alguns casos, literalmente perto de zero. O evento expôs uma vulnerabilidade real do mecanismo de liquidação automática sob condições de estresse extremo de rede, resultando em um buraco de dívida no protocolo e ações judiciais de usuários afetados.
Exposição indireta a risco de censura via PSM. Como vimos, a presença de USDC como colateral secundário no PSM significa que, em teoria, uma ação da Circle (emissora do USDC) sobre endereços específicos poderia, indiretamente, afetar parte do sistema — uma vulnerabilidade que já foi discutida abertamente durante o episódio de descolamento do USDC em março de 2023, quando a DAI chegou a acompanhar brevemente o desconto do USDC por causa dessa exposição via PSM.
Risco de governança concentrada. A governança do protocolo, exercida por detentores do token SKY (ou anteriormente MKR), representa, teoricamente, outra superfície de risco: uma eventual concentração ou ataque de acumulação de tokens de governança poderia, em tese, alterar parâmetros críticos do protocolo.
Complexidade para o usuário iniciante. Diferente de simplesmente comprar uma stablecoin pronta em uma exchange, entender profundamente como Vaults, colateralização e liquidação funcionam exige uma curva de aprendizado real — reforçando um ponto que já fizemos no artigo sobre os 7 erros de quem começa a investir em cripto: operar em DeFi sem entender a mecânica por trás do produto é um risco evitável, mas real.
Perguntas frequentes
DAI e USDS são a mesma coisa?
São stablecoins irmãs dentro do mesmo ecossistema (Sky, antigo MakerDAO), conversíveis 1 para 1 e lastreadas pelo mesmo pool de colateral. USDS é a versão mais recente, lançada em 2024, com integração nativa a mecanismos de rendimento; DAI é o token histórico, que continua em circulação e sendo usado por escolha ou integração legada.
A DAI é realmente impossível de congelar?
Na sua concepção original, sim — não existe uma empresa com poder unilateral de congelar endereços específicos, diferente de USDT ou USDC. Mas, como discutimos, a exposição parcial a colateral centralizado (como USDC via PSM) introduz um risco indireto que reduz, na prática, essa garantia de resistência à censura em relação ao modelo 100% descentralizado original.
DAI é mais arriscada do que uma stablecoin como o BRZ?
São perfis de risco diferentes, não necessariamente um “mais arriscado” que o outro de forma absoluta. O BRZ depende da solidez financeira e da conduta de uma empresa específica (a Transfero). A DAI depende da robustez do mecanismo de colateralização, da governança descentralizada e, em parte, dos ativos centralizados que compõem seu colateral — riscos de natureza diferente, que exigem análise específica.
Posso usar DAI para investir em ativos tokenizados no Brasil?
Não diretamente na maioria das plataformas brasileiras de tokenização que já exploramos no blog, que costumam operar com reais ou stablecoins locais como o BRZ. A DAI é mais relevante para quem já opera diretamente em protocolos DeFi internacionais.
O que acontece com meu DAI se eu não fizer nada?
Nada muda automaticamente. DAI continua sendo um token válido, plenamente conversível e funcional dentro do ecossistema Sky — não há prazo definido de descontinuação forçada em direção ao USDS.
Conclusão
A DAI representa um dos experimentos mais bem-sucedidos e duradouros de dinheiro digital verdadeiramente descentralizado — sobrevivendo a colapsos de mercado, ajustando seu modelo de colateral diversas vezes, e permanecendo relevante quase uma década depois de seu lançamento original em 2017. Mas o dilema que o ecossistema Sky enfrenta hoje — entre manter a pureza descentralizada original e se integrar mais profundamente ao sistema financeiro tradicional via RWA e colateral institucional — é um retrato preciso da tensão mais ampla que já vimos em outros artigos desta série: a linha entre DeFi e finanças tradicionais está ficando cada vez mais tênue, à medida que ambos os mundos percebem valor em se aproximar um do outro.
Para o investidor brasileiro que já entende os fundamentos de DeFi e stablecoins, a DAI continua sendo uma peça relevante do ecossistema — mas que exige, mais do que a maioria dos ativos que já exploramos aqui, entender profundamente o mecanismo por trás dela antes de operar.
Continue aprendendo:
- Stablecoins em Reais no Brasil: Como Funcionam e Quais Existem
- DeFi no Brasil: O que é e Como Participar
- 7 Erros de Quem Começa a Investir em Cripto (e Como Evitar)
Última atualização: julho de 2026 | Conteúdo educacional — não constitui recomendação de investimento.